Saúde Mental e Direitos Humanos



"Joga pedra na Geni!Joga pedra na Geni!Ela é feita pra apanhar!Ela é boa de cuspir!Ela dá pra qualquer um!Maldita Geni!"
(BUARQUE, Chico)

Mais uma Geni

Josie MotaNa tarde de 06/09/11, meu marido Piu Gibson, ao passar a trabalho pela feira do Ver-o-peso, em Belém, presenciou a cena grotesca e absurda do espancamento de uma moradora de rua, portadora de sofrimento psíquico, em crise, por dois “seguranças” particulares contratados pelos feirantes. Teve a presença de espírito de filmar ( http://youtu.be/DAFV-x6JX_E ), mesmo sob ameaça dos agressores, que insinuaram intenção de tirar de si o celular. No momento seguinte me telefonou e contou o que havia acontecido, mas nem por um segundo tive a dimensão exata do fato até ver o vídeo com meus próprios olhos.
Sou psicóloga, trabalho com saúde mental há pelo menos cinco (5 ) anos, atendendo pacientes psiquiátricos em crise no hospital estadual referência em psiquiatria e os acompanhando na continuidade do tratamento em um Centro de Atenção Psicossocial, e embora já esteja de certo modo habituada a cenas, no mínimo difíceis de lidar, a agressão àquela mulher indefesa, sem crítica de sua situação, completa e literalmente despida de tudo, deu um nó no estômago e na mente. Um nó difícil de desatar e que se repete na minha cabeça sob a forma de uma pergunta: Como é possível que nós, seres humanos, sejamos capazes de fazer isto com nosso semelhante?
A agressão foi desferida por dois homens que merecem  responder criminalmente pelo absurdo que cometeram (registramos boletim de ocorrência na tarde de ontem na delegacia do comércio), porém devemos ter em mente que a violência contra aquela mulher não começa ali no momento do espancamento com socos, pontapés e pancadas com cassetetes. A violência começa na ausência da assistência necessária para sair de crise, no momento em que sua família não conseguiu apoio para cuidar de si, quando sua realidade social tornou-se tão grave a ponto de restar a si somente o caminho da rua. Vale destacar que ela não estava ali no ver-o-peso fazendo turismo, estava pedindo comida, lutando pela sobrevivência, completamente nua de todos os seus direitos, veementemente negados pelo Estado.
Outra questão que merece nossa reflexão, para além da ausência do Estado na área da saúde, é a sua ausência na área de segurança pública. Por que os feirantes estão sentindo a necessidade de contratar particulares para realizar o trabalho? A cidade de Belém e o Estado do Pará estão tão inseguros a ponto da população ter que resolver por si só a questão da sua segurança? A experiência tem demonstrado que o despreparo leva a situações como esta.
É preciso ficar claro que as políticas públicas existem, os caminhos estão apontados no relatório final da IV Conferência Nacional de Saúde Mental – intersetorial ( http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/2011_2_1relatorio_IV.pdf ) , mas é preciso vontade política para tirar do papel as ações necessárias para que cenas como esta não continuem acontecendo. Sou militante do Movimento Paraense da Luta Antimanicomial e posso afirmar que o movimento social continuará fazendo a sua parte e cobrando de quem tem responsabilidade.

"Joga pedra na Geni!Joga pedra na Geni!Ela é feita pra apanhar!Ela é boa de cuspir!Ela dá pra qualquer um!Maldita Geni!"(BUARQUE, Chico)Mais uma Geni

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