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Minhas histórias do Brasil profundo: Glória e o desenvolvimento
Por Inácio França

- Adivinha o que os moradores da Tapera queriam?

- Huuummm… alguma melhoria no posto de saúde?

- Não, nem tocaram nesse assunto. Tente outra vez.

- Alguma reforma na escola?

- Esquentou, mas ainda não é isso. Perguntei da escola e eles disseram que estão satisfeitos com as professoras, a diretora, a merenda.

- Ah, já sei: pediram para asfaltar a estrada de terra.

Agora sim, a assessora estava crente que tinha matado a charada sugerida pelo prefeito. Para chegar à sede do município ou ao asfalto da rodovia estadual, os mil e poucos moradores de Tapera de Santa Maria gastavam mais de 40 minutos numa estrada de barro, era natural que apresentassem um pedido dessa natureza. A construção de não sei quantas indústrias no município acostumado a viver da agricultura e do repasse de dinheiro federal animava os moradores a tentarem resolver velhos problemas.
- Errou de novo. Vou dizer: eles pediram aulas de dança de salão. Souberam que tem aqui na cidade e também querem.

A assessora fez cara de espanto. O prefeito de satisfação. Para ele, aulas de dança em uma comunidade rural de Glória de Goitá é política de desenvolvimento.

Sua tese é simples: é necessário evitar que a oferta de emprego pelas indústrias recém-chegadas esvazie a área rural, onde vivem 47% dos 28.000 habitantes de Glória. Se esses agricultores – ou seus filhos – vierem trabalhar como operários, a cidade irá inchar. E aí, é possível que os mestres de mamulengo deixem de lado os temas tradicionais – a gaia e as confusões entre marido e mulher, por exemplo – e as apresentações dos bonecos passem a tratar de cocaína e tiroteios.
Isto, se o mamulengo sobreviver, afinal suas raízes – assim como as do cavalo-marinho e do maracatu rural – estão bem fincadas na terra. Ou na alma dos homens que vivem da terra.
Tudo isto escutei durante minha visita para participar de uma avaliação de políticas públicas a serviço do Fundo das Nações Unidas para a Infância. Quando a conversa chegou a este ponto, jurei que seria capaz de antecipar o que viria a seguir: um lenga-lenga sobre a necessidade dos bancos de crédito ou de algum ministério intervir para impedir que a industrialização alimente a violência.

Assim como a assessora, não fui capaz de adivinhar o rumo que a conversa tomaria.

O prefeito não tem a solução. Mas sabe quem tem.

As associações, cooperativas e as poucas ONGs existentes no município – entre elas, o Serviço de Tecnologia Alternativa, que já conquistou alguns prêmios nacionais com suas propostas de educação rural – foram convidadas para participar de uma reunião. Uma não, várias.

Dessas reuniões nasceram várias ideias para garantir renda e trabalho para os agricultores: assistência técnica, saneamento básico das propriedades rurais ou oferta de cursos de qualificação. Essas ideias estão sendo costuradas em um projeto que deverá ser bancado pelas próprias indústrias, que, segundo o acordo firmado com o Governo de Pernambuco, precisam reservar 1% do seu orçamento anual para ações de responsabilidade social.

Acostumados a receber pedidos de escolas e creches batizadas com o nome das esposas, mães e avós dos prefeitos, os executivos teriam elogiado as ideias. Pelo menos foi isso que o prefeito de Glória de Goitá me contou.

Enquanto o projeto não fica pronto e as fábricas não começam a faturar para financiá-lo, os diretores de duas dessas indústrias, a WHB (essa faz peças para carros) e a Nissin Miojo, já se comprometeram a comprar os alimentos que serão usados para produzir as milhares de refeições diárias a serem consumidas pelos funcionários da linha de produção.

Como Glória do Goitá produz 10% dos produtos orgânicos de Pernambuco, sou capaz de apostar que o almoço dos operários da Miojo será bem mais saudável do que o macarrão que eles mesmo irão fabricar.

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