E nascia Florestan Fernandes

E nascia Florestan Fernandes
Via Almanaque Brasil
Pai da sociologia brasileira

Dizia que começou a aprendizagem sociológica aos seis anos, quando precisou trabalhar e passou a conviver com adultos. Considerado “modelo para quem aspira a uma sociedade onde cada um possa realizar a sua dimensão verdadeiramente humana”.

Florestan Fernandes não conheceu o pai, que morreu antes de ele nascer. A mãe, imigrante portuguesa analfabeta, precisou da ajuda do filho para sustentar a casa. A patroa da mãe o chamava de Vicente:

“Florestan não é nome de pobre.”

Nascido em São Paulo em 22 de julho de 1920, passou a trabalhar aos seis anos: engraxate, auxiliar de marceneiro e de barbeiro, alfaiate, balconista de bar. Aos nove, larga os estudos. Sem perspectiva, recebe incentivo dos fregueses do bar.

“Em cima do bar se instalou um curso de madureza chamado Riachuelo. Foi difícil conseguir autorização para sair três vezes por semana.”

Em três anos o cozinheiro concluiu o segundo grau. Passava até 18 horas lendo em bibliotecas públicas.


Vicente morre
Aos 18 anos, Florestan conquista o que parecia impossível. Entra na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, USP, aprovado por dois mestres da Sociologia francesa:

“Nos exames de habilitação quem me examinou foram os dois Bastide, o Roger e o Paul.”

Em 1943, forma-se. Suas teses de mestrado e doutorado, orientadas por Fernando de Azevedo, foram os primeiros trabalhos sobre a organização social dos tupinambás – tribo extinta. Passa a lecionar na USP aos 23 anos.

“Nesse momento o Vicente começou a morrer.”

Em 1944, casou com Myriam Rodrigues Fernandes. Tiveram seis filhos. Florestan Fernandes Jr. conta que o pai “era professor muito rigoroso”. Fazia comentários mais longos que a própria prova. A caneta Parker roxa era temida.

Na década de 1950, realiza pesquisa em parceria com Roger Bastide, em que contesta o mito da democracia racial. Publica Negros e Brancos em São Paulo (1959) e A Integração do Negro na Sociedade de Classes (1964), em que defende uma “segunda abolição”.

Em 1969, recebe um golpe da ditadura: posto na lista de professores que deveriam responder a Inquérito Policial Militar (IPM). No Dops (Departamento de Ordem Política e Social) traçam-lhe o perfil: “dotado de ambição sem limites, desleal, despatriado, amoral e revoltado com sua humilde origem”.

É aposentado compulsoriamente. Fica três anos no exterior, leciona em universidades de Columbia e Yale (EUA) e Toronto (Canadá).


Sociólogo e político
Volta em 1972 como fundador da nossa Sociologia crítica. Inova ao romper a postura dominante que se limita a descrever o País. Lançou, em 1975, A Revolução Burguesa no Brasil, clássico que retrata a resistência à mudança social proporcionada pela classe que tem poder e dinheiro, crítica ao processo de constituição do capitalismo brasileiro.

Socialista, contribuiu para a fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980, mas só se filiou seis anos depois. Deputado federal duas vezes entre 1987 e 1995, participou da Constituinte de 1988, destacando-se na defesa da escola pública e na contribuição para o projeto de Lei de Diretrizes e Bases da Educação.


Florestan não morre
Pai da Sociologia brasileira, permitiu-nos conhecer melhor nosso País. Repensou o passado. Sua postura militante, crítica e dedicada permite o diálogo com a diversidade cultural e as diferenças sociais brasileiras. O amigo Antônio Cândido, nosso maior crítico literário vivo, o definiu como “modelo para quem aspira a uma sociedade onde cada um possa realizar a sua dimensão verdadeiramente humana”.

Morreu aos 75 anos, em 10 de agosto de 1995, dias após passar por transplante de fígado.

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