Matéria do Jornal The Washigton Post denuncia internacionalmente a Chacina de Belém
A reportagem de Dom Phillips, repórter do Jornal americano The Washigton Post, traz novamente à tona no cenário internacional a Chacina de Belém, ocorrida em 04 de novembro de 2014. Esta traz fortes depoimentos de parentes de vítimas, que demonstra de forma explícita como se deu a chacina e quem eram as vítimas. A reportagem se refere também ao relatório da CPI das milícias, divulgado em 30/01/2015, em que aponta fortes indícios de que a chacina do dia 04/11/2014 foi feita por grupos milicianos, que contava com participação de policiais militares e ex-policiais.
O Resistência On-line publica aqui a reportagem, com tradução livre de Raony Pinheiro, advogado e colaborador da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos.
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| Foto: Paulo Santos/REUTERS |
TERRA FIRME, Belém, Brasil - A esquina
onde Eduardo Chaves, de 16 anos, foi morto fica a apenas algumas centenas de
metros de um centro que é uma delegacia de polícia e um centro comunitário
nesta movimentada favela. Mas nenhuma polícia interveio no dia 04 de novembro,
quando ele foi executado por uma escolta de homens mascarados em motocicletas e
carros. Ele foi um dos 10 meninos e jovens baleados naquela noite.
Raul, um parente próximo, tentou
salvar Eduardo quando os assassinos o abordaram. "Eu corri lá para
ajudá-lo '', disse Raul, que não quis dar seu nome real. Ele foi ameaçado com
um tiro na cabeça. Um espectador o afastou de lá. Ele ouviu, mas não viu os tiros
que deixaram Eduardo morto em uma poça de sangue. Raul disse que sentiu
"desespero, choro, tristeza."
Um inquérito condenatório liberado em
30 de janeiro pela Assembleia Legislativa do Estado do Pará – do qual Belém, é a capital - disse que a polícia foi conivente
em um massacre que foi anunciado anteriormente. Suas ramificações ainda ecoam
por esta cidade amazônica de 1,4 milhões, em que perguntas incisivas estão
sendo feitas sobre a epidemia de violência do Brasil - 56.000 pessoas foram
mortas em 2012 - e do papel que sua polícia mal remunerada faz em ambos os
lados da linha de frente.
O massacre foi desencadeado pelo assassinato
duas horas antes de Antônio Figueiredo, um cabo da polícia militar de rua do
Brasil, que estava em licença médica prolongada, sendo forçosamente reformado e
respondendo por dois inquéritos de homicídios. Cabo Pet, ou Pety, como Figueiredo
era conhecido, comandava uma violenta gangue criminosa, chamada de milícia, na
favela adjacente do Guamá, a qual incluía policiais militares.
Sua morte enfureceu seus colegas
policiais, que tomaram a redes sociais. "Amigos, o nosso irmãozinho Pety,
Cabo Figueiredo, acabou de ser assassinado no Guamá. Estou indo, espero contar
com o máximo de amigos, vamos dar a resposta, "Sgt. Rossicley Silva, um ex-colega
de Figueiredo de unidade Tática da Polícia e presidente de uma associação de
praças da polícia, escreveu no Facebook. Silva disse ao jornal The Washington
Post que o sua postagem havia sido mal interpretada e não quis fazer mais
comentários.
Enquanto advertências do iminente
massacre se espalhavam em torno da Terra Firme no serviço de telefonia celular
de bate-papo WhatsApp, Eduardo e sua namorada foram buscar sua filha no
apartamento vizinho. Ela foi poupada. Ele não.
"Esta ação da milícia no bairro
da Terra Firme aconteceu com a complacência total, a proteção e garantia....dos
policiais militares da região", disse o Deputado Estadual do Pará Carlos
Bordalo, que conduziu o inquérito. "Os carros de polícia prestaram apoio
logístico....Os carros da polícia impediram o ferido de sair para receber ajuda
externa."
Baseando-se em investigações
anteriores e em depoimentos de testemunhas e policiais, o relatório concluiu
que, pelo menos, cinco milícias estavam atuando no Pará e que estavam envolvidas
em massacres que datam de 1994, nos quais policiais estavam envolvidos e, em
alguns casos, presos.
Isto se parece com um romance tropical
de James Ellroy. Milícias ofereciam serviços de segurança privada para as
empresas locais, incluindo assassinatos por encomenda e execução de criminosos
conhecidos, e no Guamá eles também objetivaram controlar o tráfico de drogas.
A polícia está realizando sua própria
investigação. General Jeannot Jansen, Secretário de Segurança Pública do
Governo do Estado do Pará, disse que Figueiredo era um bom policial que se
corrompeu. "Seu registro de serviço foi excelente até um certo tempo. A
partir de um certo momento, ele se envolveu com as pessoas que supostamente
faziam parte da criminalidade ", disse Jansen.
Jansen disse que ele era incapaz de
confirmar a existência de milícias.
"Há indícios. É por isso que há
essa investigação", disse ele. "Existem alguns indícios que nos
permitem supor que houve participação da polícia? Sim, há."
E se isso puder ser provado, ele disse,
"eles serão punidos."
Alguns em Belém consideravam
Figueiredo como uma espécie de homem da lei do velho-oeste que fazia o
intragável para que pudesse existir uma sociedade mais segura. Em uma manhã
recente, dois homens sem camisa se sentaram na rua do Guamá onde Figueiredo
viveu, na esquina do ponto de moto táxi onde ele foi morto a tiros.
"Eu gostava muito dele",
disse um deles, falando sob condição de anonimato. Ele apontou para uma câmera
de segurança posicionada no alto de um poste. "Ele colocou a câmera ali",
disse ele. "Houve menos crimes. Eles o respeitavam. Bandidos não faziam
nada."
Outros celebraram soltando fogos de
artifício quando Figueiredo foi morto. "Este Pet era conhecido como sendo
uma pessoa extremamente violenta", disse uma parente de Bruno Gemaque, 20
anos, outra vítima do massacre, também falando sob condição de anonimato.
"Se ele tivesse em sua cabeça que alguém era um bandido, ele iria atirar e
matar."
Gemaque foi morto na frente de sua
namorada. Ele estava dando a ela uma carona da escola para a casa em sua
bicicleta quando o esquadrão da morte os abordou. "Eu não podia chorar de
tanta angústia", disse a parente. "Ele era uma pessoa muito
feliz."
A frase "bandido bom é bandido
morto" é usada com frequência no Brasil para justificar assassinatos
cometidos pela polícia. No entanto, de acordo com um relatório policial
confidencial visto pelo The Post, apenas
uma das vítimas estava envolvida em crime. Parentes de quatro das vítimas
afirmaram a inocência destes.
"Ele não tinha inimigos",
disse uma parente próxima do sexo de Márcio Rodrigues, 22 anos, que foi baleado
nas costas quando a matança se aproximava de seu fim. Um parente próximo da
vítima Allersonvaldo Carvalho Mendes, 37 anos, disse que ele tinha déficit de
aprendizagem e, consequentemente, não atendeu os avisos para sair da rua.
Luiz Passinho, um soldado da Polícia
Militar, disse que muitos policiais de folga fazem trabalho de segurança
privada semelhante ao que a milícia de Figueiredo oferecia. "É ilegal, mas
é tolerada porque inibe demandas salariais", disse ele.
Descontente com baixos salários e más
condições de trabalho, Passinho se juntou a uma greve em 2014 e é um dos 41
policiais que respondem a procedimentos disciplinares internos. "O que
alimenta a milícia é exatamente essa insatisfação", disse ele. "Eles
olham para aquele oficial que precisa de renda. . . que está se sentindo
inseguro, aquele oficial que está revoltado por causa da morte de um
companheiro. "
Até novembro, a palavra
"milícia" era pouco utilizada no Pará, disse Eliana Fonseca, Ouvidora
do Sistema de Segurança do Estado.
Os assassinatos aterrorizaram
moradores. Por dias depois, muitos ficaram em casa enquanto a cidade estava
paralisada por "uma reação de medo, de insegurança", disse ela,
"como se estivéssemos em uma sociedade onde nada poderia ser feito."
Fonseca disse que milícias como a de
Figueiredo continuam atuando e assassinando, mas com menor intensidade - e mais
notoriedade. Todo mundo aqui já sabe o que a palavra "milícia"
significa.
Dom Phillips é correspondente do The
Post no Rio de Janeiro.
Tradução Livre: Raony Pinheiro
