RENAP e JusDh lançam nota em defesa da democracia e dos direitos sociais

A RENAP e a JusDh lançaram, nesta última quinta-feira (17.03.2016) nota pública manifestando sua preocupação com os rumos da democracia no Brasil e todos ataques sistemáticos a garantias fundamentais feitos no âmbito da operação Lava Jato. a Nota denuncia a ilegalidade de decisões do Juiz Federal Sérgio Moro, com destaque ao episódio da condução coercitiva de Lula e das escutas telefônicas envolvendo a presidência da república.
Veja integra da nota a baixo:
Nota Pública
A Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares – RENAP* e a Articulação Justiça e Direitos Humanos – JusDh** vêm a público manifestar extrema preocupação com o grave cenário atual de esvaziamento sistemático de garantias e direitos fundamentais, promovido por atores do sistema de justiça.
Temos assistido a sucessivos atos judiciais que violam os princípios e
garantias individuais e colocam em xeque a democracia brasileira. Nos
últimos dias, o juiz Sérgio Moro, titular 13a Vara Federal de Curitiba,
vem constrangendo a comunidade jurídica comprometida com a defesa dos
direitos humanos e com o respeito ao Estado Democrático de Direito.
Dentre suas diversas decisões abusivas, destacam-se:
Primeiro, a condução coercitiva do ex-presidente Luis Inácio Lula da
Silva para prestar depoimento à Polícia Federal sobre a investigação de
atos de corrupção que envolvem atores públicos e privados relacionados
às atividades da Petrobrás. Esse episódio chamou a atenção da imprensa e
trouxe ao debate público a discussão sobre a legalidade da medida.
A ordem de condução coercitiva determinada pelo, juiz Sergio Moro foi
requerida pelo Ministério Público Federal, sob o argumento de ser
necessário o efeito surpresa porque em depoimentos anteriores teria
havido tumulto provocado por militantes políticos e que havia o receio
de que tumultos equivalentes se repetissem. Ocorre que a fundamentação
para o pedido do Ministério Público Federal e para a decisão do juiz
Sérgio Moro é insuficiente para justificar a medida, que no sistema
penal brasileiro é excepcional. Assim determinada, torna-se ilegal e
viola garantias constitucionais fundamentais do Estado de Direito.
Segundo, a realização de escutas e a deliberada entrega ilegal de
áudios da Chefe do Poder Executivo Nacional à mídia para ampla
divulgação. Tal medida não apenas configura a produção de prova
manifestamente ilícita e, portanto, imprestável a qualquer processo
judicial, mas, ainda mais importante, incita parte da população
brasileira a agredir e a romper com a ordem democrática estabelecida.
Acompanhamos as decisões de parte das Seccionais da Ordem dos
Advogados do Brasil, que vêm se posicionando publicamente em favor do
impeachment da Presidenta Dilma Roussef e, até mesmo, convocando a
sociedade para participação em manifestações. Tais manifestações, que
nem de longe representam a maioria da população brasileira, se organizam
sob o pretexto de combater a corrupção no governo, pregando, por vezes,
o retorno do regime militar no país.
Consideramos que o combate à corrupção deve ser constante, pois é
imprescindível para a máxima efetividade dos direitos sociais. Porém, o
custo de se suprimirem garantias e direitos fundamentais sob o manto do
combate à corrupção é enfraquecer os pilares do Estado de Direito,
conquistado com muita luta popular . A máxima “todos são iguais perante a
lei” é o principal sustentáculo da igualdade, mas defender que “todos
são iguais perante a violação da lei” é o combustível de um estado
autoritário.
Tais fatos fragilizam as Instituições construídas e moldadas a partir
da Constituição Federal de 1988. As instâncias e poderes precisam ser
respeitados e preservados. As instituições e seus membros devem, além de
se ater as suas funções democráticas, não ceder a pressões políticas e
corporativas.
Foi noticiado que nesta sexta-feira, 18, ocorrerá uma sessão
extraordinária do Conselho Pleno e do Colégio de Presidentes de
Seccionais. A reunião foi convocada pelo Presidente Nacional da OAB,
Claudio Lamachia, sob a justificativa da “gravidade dos fatos tornados
públicos nesta quarta-feira”.
Lembramos que a OAB tem como missão “defender a Constituição, a ordem
jurídica do Estado democrático de direito, os direitos humanos, a
justiça social, e pugnar pela boa aplicação das leis, pela rápida
administração da justiça e pelo aperfeiçoamento da cultura e das
instituições jurídicas”. E, nesse sentido, repudiamos qualquer adesão
desta entidade às estratégias que visem o afastamento ilegal de governo
eleito democraticamente pelo voto popular.
Ressaltamos nossa contrariedade a qualquer medida que viole as
garantias constitucionais conquistadas com muita luta pela sociedade
brasileira, ainda mais quando ela é cometida por agentes do sistema de
justiça que tem o papel de efetivar direitos e garantias fundamentais do
Estado Democrático de Direito.
A RENAP e a JusDh se colocam assim na defesa da democracia e da
democratização dos acessos a direitos. O país não precisa de uma ruptura
conservadora, mas sim avançar em mecanismos de democracia direta e
participação social.
Brasília, 17 de março de 2016.
*A Renap é constituída por pessoas que realizam assessoria
jurídica junto a diversos movimentos sociais, organizações da sociedade
civil, assim como por professores e professoras, de forma horizontal e
sem hierarquia.
**Rede nacional composta por organizações e movimentos sociais que fazem litigância em diversos temas de direitos humanos e atuam na democratização do sistema de justiça.
**Rede nacional composta por organizações e movimentos sociais que fazem litigância em diversos temas de direitos humanos e atuam na democratização do sistema de justiça.
Publicação original: Site da JusDh