Mandante de chacina de trabalhadores rurais é preso no Pará
Por Viviane
Brigida
A histórica chacina onde oito trabalhadores
rurais, entre eles uma trabalhadora grávida, foram assassinados por pistoleiros
a mando do fazendeiro Edmundo Vergolino. Este é um dos crimes do latifúndio que marcam
vergonhosamente o Estado do Pará, condenado pelo caso internacionalmente.
Neste mês, outros episódios envolvendo as
famílias de latifundiários foram noticiadas. O mais recente foi a prisão do chefe
de milícia armada de fazendeiros preso em Marabá e agora a prisão do pecuarista Edmundo Vergolino. Em comum, as mesmas práticas,
mesmos históricos de violência contra trabalhadores e trabalhadoras rurais na
região.
Neste caso, fazendeiro Edmundo Vergolino chegou a
ser preso e cumprir pena em 2006, no presídio de Marabá, no entanto, teve
concedida a prisão domiciliar. E no ano seguinte, 2007 obteve alvará de
liberdade provisória concedida pelas as Câmaras Criminais Reunidas.
A Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos
(SDDH) que acompanha desde o início o processo da Fazenda Ubá, define o caso
como emblemático, terrível, pois apresenta há décadas a ação e a capacidade de
articulação de grupos criminosos no Estado do Pará ligados à fazendeiros.
Segundo Marco Apolo Leão, presidente da entidade,
a condenação e a prisão do fazendeiro Vergolino não é o mais importante. Para o
advogado, o mérito está no esforço coletivo de entidades como CPT (Comissão
Pastoral da Terra), MST, SDDH e outras organizações nacionais que fazem frente
a questão da violência no campo. As organizações sociais realizam
enfrentamentos pelos direitos. Tem que ter ações de advogados, camponeses,
militantes, pesquisadores, como sociedade civil em geral de acordo com a
realidade evidenciada.
“Infelizmente
o Pará é campeão em violência no campo é um dos mais violentos do Brasil na
área urbana também. É necessário fazer ações como foi o caso da fazenda Ubá e
responsabilizar não só pessoas mas também o estado brasileiro. Neste caso, com
a condenação do Pará na OEA (Organização dos Estados Americanos), houve a
obrigação de garantir terras, indenizações para as famílias e apesar da
tragédia, tornou-se exemplo de uma ação para defensores e defensoras de
direitos humanos” declara Leão.
Casos como da fazenda Ubá, Massacre de Eldorado
dos Carajás, Massacre de Pau D´arco e tantos outros são exemplos de violência e
violações. Para as organizações de luta pela defesa dos direitos humanos no
estado, principalmente para os movimentos sociais no campo, o cenário se mantêm
e permanece de conflitos.
Para Marco Apolo, os lutadores e lutadoras tem
que homenagear os mortos da fazenda Ubá e parabenizar a todos/as que lutam por
essa causa “No Brasil de hoje que existe
um presidente fascista e que faz apologia à violência. Os defensores e defensoras
de direitos humanos tem que buscar o campo democrático, da legalidade pra
enfrentar essa realidade toda” finaliza.
(FOTO - ARQUIVOS SDDH)
A Cronologia feita pela SDDH
sobre o caso da Fazenda Ubá:
1985
13 JUN _os trabalhadores rurais João Evangelista Vilarina, Francisco Pereira
Alves, Januária Ferreira Lima, Francisca – à época, grávida – e Luís Carlos
Pereira de Sousa, ocupantes da Fazenda Ubá, no município de São João do
Araguaia, são friamente executados por pistoleiros.
14 JUN _os corpos são encontrados por trabalhadores, em uma mata nos limites da Fazenda Ubá, com ferimentos de arma de fogo, em especial nas regiões craniana e toráxica.
15 JUN _polícia civil inicia investigações.
18 JUN _cinco dias depois dos primeiros assassinatos, são executados José Pereira da Silva, Valdemar Alves de Almeida e Nelson Ribeiro, encontrados na área da fazenda, também com ferimentos realizados por arma de fogo concentrados nas regiões craniana e toráxica. Suas casas foram queimadas e os corpos amarrados e afundados no rio.
14 JUN _os corpos são encontrados por trabalhadores, em uma mata nos limites da Fazenda Ubá, com ferimentos de arma de fogo, em especial nas regiões craniana e toráxica.
15 JUN _polícia civil inicia investigações.
18 JUN _cinco dias depois dos primeiros assassinatos, são executados José Pereira da Silva, Valdemar Alves de Almeida e Nelson Ribeiro, encontrados na área da fazenda, também com ferimentos realizados por arma de fogo concentrados nas regiões craniana e toráxica. Suas casas foram queimadas e os corpos amarrados e afundados no rio.
1999
A Sociedade Paraense de Defesa
dos Direitos Humanos (SDDH), o Centro pela Justiça e o Direito Internacional
(CEJIL), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Movimento Nacional de Direitos
Humanos (MNDH) denunciam à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH)
as violações dos direitos à vida e a garantia e proteção judiciais da Convenção
Americana de Direitos Humanos.
2008
13 NOV _reunião de Trabalho com os peticionados, Secretaria Especial de
Direitos Humanos, Ouvidoria Agrária Nacional, Ministério das Relações
Exteriores e Procuradoria do Estado do Pará, peticionários CEJIL e SDDH/MNDH e
a CIDH com o comissionado Felipe Gonzáles, relator para o Brasil da CIDH, e do
Dr. Mario López, Advogado da CIDH. Na reunião de trabalho novamente foi
debatido o acordo.
2010
19 JUL _dez anos depois da denúncia ter sido realizada – e 25 anos após a
chacina -, é assinado um Acordo de Solução Amistosa foi firmado entre os familiares das vítimas e o Estado. O acordo obriga
que o Estado brasileiro reconheça a responsabilidade internacional por ter
violado direitos humanos e realize uma cerimônia pública pendido formalmente
desculpas aos familiares das vítimas da Chacina da Fazenda Ubá.
17 DEZ _É publicado o acordo no Diário Oficial da União (Seção 3. N° 241, sexta-feira, 17 de dezembro de 2010. Pág. 4-5. ISSN 1677-7069).
17 DEZ _É publicado o acordo no Diário Oficial da União (Seção 3. N° 241, sexta-feira, 17 de dezembro de 2010. Pág. 4-5. ISSN 1677-7069).
2011
21 JAN _é publicado o Acordo de Solução Amistosa da Fazenda Ubá no Diário
Oficial do Estado do Pará (N° 31838 de 21/01/2011. Número da publicação:
197958).
14 JUN _sancionada Lei estadual 7.528/11, que concede indenização e pensão especial às famílias das vítimas da Fazenda Ubá, concretizando as cláusulas 11 e 13 do Acordo de Solução Amistosa.
15 JUN _SDDH lança nota pública sobre o caso.
14 JUN _sancionada Lei estadual 7.528/11, que concede indenização e pensão especial às famílias das vítimas da Fazenda Ubá, concretizando as cláusulas 11 e 13 do Acordo de Solução Amistosa.
15 JUN _SDDH lança nota pública sobre o caso.
2019
24- JAN_ O
governo do Estado envia um avião para Marabá (PA) com equipe da polícia civil,
para cumprir o mandado de prisão do fazendeiro condenado José Edmundo Ortiz
Vergolino.
25- JAN_ O
fazendeiro Edmundo Ortiz Vergolino chega em Belém onde irá cumprir a prisão. A
defesa do fazendeiro divulgou que irá novamente entrar com pedido de habeas
corpus junto ao Tribunal de Justiça do Estado pedindo a prisão domiciliar ou
hospitalar do condenado, hoje com 82 anos de idade.
