Carta do Guamá- Agenda Propositiva para o Desencarceramento na Amazônia
Nos dias 03 e 04 de maio militantes sociais, defensores/as de direitos humanos do Pará,
Maranhão, Amazonas e Amapá estiveram reunidos em Belém do Pará no “Seminário regional: agenda propositiva pelo
desencarceramento na Amazônia”.
As atividades organizadas pela SDDH integram a Agenda Nacional pelo Desencarceramento e conta com o apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos.
No encerramento do evento, os participantes construíram uma carta manifesto reafirmando o compromisso com a agenda e seus propósitos.
(Foto: Comunicação SDDH)
Carta
do Guamá
Nós, representantes de
movimentos sociais e entidades de direitos humanos, vindos de diversos municípios do estado do
Pará e dos estados do Maranhão, Amapá e Amazonas, reunidos no bairro do Guamá,
em Belém-PA, participantes do “Seminário
Regional “Agenda Propositiva para o Desencarceramento na Amazônia”,
promovido pela Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, vimos a
público manifestar nosso compromisso na defesa dos direitos humanos e pela luta
por uma política de desencarceramento na Amazônia.
O Brasil é o 3º país
com a maior população carcerária no mundo, com mais de 715 mil pessoas em
situação de restrição ou privação de liberdade[1], além
de ser o país onde mais tem crescido o encarceramento de pessoas,
principalmente de jovens pobres, negros e negras das grandes periferias, sendo
que a grande maioria das prisões são provisórias, ou seja, pessoas sem
condenação e que poderiam estar em liberdade. No Pará já são cerca de 20 mil
pessoas custodiadas para menos de 10 mil vagas[2]. As
mulheres cada vez mais são alvo dessa onda de aprisionamento, sendo que desde o
ano 2000 houve um aumento de quase 700% na população carcerária feminina em
todo o país[3].
Uma das principais
causas deste crescimento é a equivocada política de segurança pública voltada à
criminalização da juventude, a morosidade do judiciário em julgar os processos
de presos provisórios, o aumento do desemprego e a total ausência de políticas
sociais voltadas à inclusão social, em especial a juventude negra.
A projeção que se
coloca no cenário atual é de agravamento da situação, com um governo que adota
uma postura de esvaziamento de políticas públicas, retiradas de direitos
sociais e fortalecimento de um estado policial e repressor. Ou seja, o atual
governo aprofunda uma política de encarceramento e violência, em substituição
de uma política de inclusão dos mais pobres.
Nestes dois dias em que
estivemos refletindo sobre a situação do cárcere no Brasil e na Amazônia, é necessário
afirmar e reafirmar que este não pode ser a perspectiva de presente e futuro
para a solução dos graves problemas sociais existentes no Brasil, como acredita
o atual governo, que oferece aos mais pobres a retirada de seus direitos e o
cárcere, mas por outro dá aos mais abastados a garantia de suas regalias e privilégios.
Portanto, cabe denunciar que o chamado pacote Anticrime, apresentado pelo
Governo de Bolsonaro, não resolverá o grave problema da desigualdade social, da
concentração de terra e do desemprego crescente em nosso país. Além disso, não
foi apresentado nenhum estudo que mostrasse o real impacto desta medida para a
diminuição da violência e nem os custos para sua implementação, o que nos faz
concluir que é uma medida ineficaz.
Portanto, para a
solução do grave problema do superencarceramento no Brasil e nos estados da
Amazônia, reafirmamos a necessidade de que seja adotada por parte do governo
federal e dos governos estaduais políticas públicas estruturantes, medidas que
garantam os direitos das pessoas em situação de privação e restrição de
liberdade e adoção de uma concepção de Justiça Restaurativa em contraponto à lógica
punitivista e de segregação social.
Para organizar esta
luta em defesa dos direitos humanos e por uma política de desencarceramento, os
movimentos sociais e entidades de direitos humanos presentes propuseram e
aprovaram no Seminário a criação da Frente Estadual pelo Desencarceramento, com
dois grandes propósitos: 1) Disseminar informações para a sociedade da atual
situação do sistema carcerário, dialogando sobre a necessidade de se formular
políticas buscando resolver o problema do superencarceramento, das condições do
cárcere e das violações de direitos humanos das pessoas em situação de privação
e restrição de liberdade e de seus familiares. 2) Dialogar, debater e propor
para os órgãos públicos políticas voltadas para diminuir a população
encarcerada, buscando medidas alternativas à privação de liberdade. 3) Atacar
as causas desse processo de encarceramento como a falta de acesso e garantia de
justiça e a ausência de políticas de inclusão social como educação e trabalho.
Belém, 4 de maio de 2019.
Assinam
as entidades / instituições presentes:
Sociedade Paraense de Defesa dos
Direitos Humanos - SDDH
Articulação de Mulheres Brasileiras -
AMB
Associação Brasileira de Juristas pela
Democracia - Núcleo Pará
Associação de Mulheres do Campo e da
Cidade de Barcarena - AMCCB
Centro de Defesa da Criança e do
Adolescente - CEDECA/Emaús
Centro de Estudos e Defesa do Negro do
Pará - CEDENPA
Comissão da Mulher Advogada OAB/PA -
Paragominas
Comissão de Defesa da Mulher OAB/PA -
Santa Izabel do Pará
Comitê de Direitos Humanos do Amazonas
Comitê Contra a Tortura do Amapá
Conselho Regional de Psicologia - CRP 10
Espaço Cultural “Nossa Biblioteca”
Federação dos(as) Trabalhadores(as) na
Agricultura - FETAGRI-PA
Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense -
FMAP
Grupo Cabano de Criminologia
Grupo de Mães do Extermínio da Cidade de
Belém e no Estado do Pará
Grupo de Mulheres Brasileiras - GMB
Grupo de Pesquisa Direito Penal e
Democracia
Instituto e Centro de Referência e Apoio
a Saúde de Manaus - ICRASIM
Levante Popular da Juventude
Movimento Nacional de Direitos Humanos -
MNDH
MOCAMBO
Movimento de Mulheres do Campo e da
Cidade - MMCC-PA
Movimento de Mulheres do Nordeste do
Pará - MMNEPA
AMTRAPESC- Cachoeira do Ariari
AMTRAPESC- Cachoeira do Ariari
Movimento de Mulheres do Tapanã - MMT
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra - MST
Movimento Xingu Vivo Para Sempre
Pastoral Carcerária - Amapá
Pastoral Carcerária - Pará
Projeto AfroCine
Projeto Tela Firme
Rede de Mulheres Negras
Rede Sapato Preto
Sociedade Maranhense de Direitos Humanos
- SMDH
Universidade Popular - UNIPOP
[1] CNJ. Disponível em:
http://www.cnj.jus.br/inspecao_penal/mapa.php. Acesso em 04 maio 2019.
[2] G1-PA. Disponível em:
https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2019/05/07/mais-da-metade-da-populacao-carceraria-do-para-e-de-presos-provisorios.ghtml.
Acesso em 04 maio 2019.
[3] FGV. Disponível em:
http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/25741. Acesso em 04 maio
2019.
