NOTA PÚBLICA SOBRE O MASSACRE NO PRESÍDIO DE ALTAMIRA-PARÁ
A SOCIEDADE PARAENSE DE DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS - SDDH, o CENTRO DE ESTUDO E DEFESA DO NEGRO NO PARÁ - CEDENPA, e o CENTRO DE DEFESA DA CRIANÇA E DO
ADOLESCENTE - CEDECA/Emaús vêm a
público manifestar indignação e exigir a tomada de providências para evitar outros
massacres, como o que ocorreu no presidio de Altamira-PA na manhã de 29 de
julho de 2019, em que mais de 50 pessoas foram assassinadas, algumas com requintes
de crueldade, segundo as primeiras informações.
Certamente os autores
desses crimes devem ser responsabilizados na forma da lei, e esperamos que isso
ocorra o mais rápido possível. Contudo, não se pode esconder o absurdo e
alarmante fracasso de nossos sistemas de segurança pública e de justiça em
garantir a integridade e preservar as vidas que o próprio Estado se comprometeu
a resguardar.
É mais uma tragédia
anunciada, dessas tantas que ocorrem todos os dias Brasil afora. E sabemos que,
infelizmente, essa realidade tende a piorar se não forem adotadas providências
imediatas em várias esferas do poder público para minimizar os riscos encontrar
saídas para o problema do superencarceramento existe no nosso estado e em nosso
país.
O Brasil é o 3º país
com a maior população carcerária no mundo, atualmente com mais 812 mil pessoas
em reclusão, segundo o CNJ, além de ser o país onde mais tem crescido o
encarceramento de pessoas, principalmente de jovens pobres, negros e negras das
grandes periferias, sendo que a grande maioria das prisões são provisórias, ou
seja, pessoas sem condenação e que poderiam estar em liberdade. No Pará, a
superpopulação carcerária também assombra. São mais de 20 mil pessoas
custodiadas para menos de 10 mil vagas, de acordo com a Superintendência do
Sistema Penitenciário do Pará (SUSIPE).
Em um país em que um
chefe de (des)governo afirma que a única coisa que presta em determinado estado
(referindo-se ao Maranhão) é o presídio, temos a exata dimensão do descompromisso
de muitas autoridades com a realidade que já aflige quase um milhão de
brasileiros, o cárcere.
No caso de Altamira, a
realidade é muito mais grave. O megaprojeto da Usina Hidrelétrica de Belo Monte
levou dezenas de milhares de pessoas para aquela região e depois abandou-as à própria
sorte sem nenhum aporte significativo para a segurança pública ou políticas
sociais. Por outro lado, temos acompanhado casos cada vez mais graves de violência,
assaltos, estupros e chacinas, sem nenhuma medida preventiva eficaz por parte
do poder público.
O governo de Bolsonaro,
por sua vez, só trouxe propostas para agravar a violência, a desigualdade
social, a concentração de terras e o desemprego crescente em nosso país. Portanto,
para a solução do grave problema do superencarceramento no Brasil,
especialmente nos estados da Amazônia, reafirmamos a necessidade de que seja
adotada por parte do governo federal e dos governos estaduais políticas
públicas estruturantes, medidas que garantam os direitos das pessoas em
situação de privação e restrição de liberdade e adoção de uma concepção de justiça
restaurativa em contraponto à lógica punitivista e de segregação social.
Mais do que nunca, é
necessário atacar as causas desse processo de encarceramento, especialmente a
falta de acesso e garantia de justiça e a ausência de políticas de inclusão
social, como educação e trabalho.
Entendemos que deve ser
feita uma profunda investigação da realidade dos presídios paraenses com a real
melhoria das condições de cumprimento de penas. Que as garantias previstas na
Lei de Execução Penal sejam ampliadas e de fato cumpridas pelas autoridades. Que
a Defensoria Pública e o Ministério Público efetivamente garantam o acesso à
justiça aos presos e presas, e que o Poder Judiciário adote uma postura de
respeito às garantidas fundamentais e processuais dos que respondem a processos,
para evitar a continuidade de prisões que poderiam ser substituídas por medidas
cautelares ou pela aplicação de penas alternativas.
Aqueles que
assassinaram estas 57 pessoas no presídio de Altamira devem, sem dúvidas,
responder por seus atos. Contudo, a Norte Energia, o Governo do Estado e a União
devem ser também responsabilizados pela tragédia que foi (e ainda é) Belo Monte
contra toda a população da região do Xingu.
As entidades
subscritoras informam que acionarão a Procuradoria Federal dos Direitos do
Cidadão, vinculada ao Ministério Público Federal, e também os órgãos estaduais
de segurança pública, solicitando providências urgentes para a não repetição
destes fatos nos presídios paraenses, e enviará, juntamente com outras entidades,
informes aos organismos internacionais de proteção dos direitos humanos sobre a
trágica situação das prisões no estado do Pará, para a devida investigação
sobre a atuação do poder público brasileiro na questão carcerária.
Por fim, as entidades
exigem que o Estado dê todo o suporte necessário aos familiares das vítimas do
massacre ocorrido hoje em Altamira, bem como assuma a obrigação de reparar os
danos causados a essas famílias.
Belém-PA, 29 de julho
de 2019.
SOCIEDADE
PARAENSE DE DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS – SDDH
CENTRO
DE ESTUDO E DEFESA DO NEGRO NO PARÁ – CEDENPA
CENTRO
DE DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE – CEDECA/Emaús