NOTA DO FÓRUM ESTADUAL DE DIREITOS HUMANOS
O Fórum de Entidades de Direitos Humanos do Pará, que luta
pela garantia de direitos fundamentais definidos pela Constituição Federal
Brasileira de 1988 e por tratados internacionais, vem a público manifestar a indignação
coletiva de entidades, movimentos, organizações, ativistas e frentes populares
contra as declarações escancaradamente racistas proferidas pelo Procurador e
Ouvidor Geral do Ministério Público do Pará, Ricardo Albuquerque. Em evento
formalmente agendado com estudantes no prédio do MPPA, o procurador proferiu
posicionamentos pessoais que geram suspeição sobre sua conduta e imparcialidade
no judiciário do Estado.
Sua fala evidencia que o racismo institucional em nosso
judiciário, tão denunciado por organismos de defesa da população negra no
Brasil, não apenas existe como se personifica, através de posicionamentos tão preconceituosos que fazem
duvidar de haver imparcialidade na atuação do procurador junto a Ouvidoria do
MP.
Afirmar que acredita não haver dívida alguma com
quilombolas, significa não reconhecer que essas pessoas só formaram quilombos
no Brasil porque foram sequestradas e trazidas para trabalhos forçados, sem
remuneração, impostos com absoluta brutalidade e finalmente em 1888 expulsas destes
mesmos locais, sem nenhuma condição de moradia ou subsistência, bem como não
reconhece que muitos dos locais para onde foram ainda hoje representam muitas
das áreas favelizadas nas cidades e comunidades. Após 300 anos sendo exploradas
de todas as formas, descendentes destas pessoas estão a meros 130 anos
esperando que a riqueza gerada pelo seu trabalho resulte no atendimento de seus
direitos básicos e fundamentais.
Ao Ministério Público, cuja missão é defender os interesses
da sociedade e garantir os direitos de cidadãs e cidadãos, não é admissível que
coadune com o desrespeito, o preconceito e a ignorância total demonstrada pelo
procurador em relação às pautas realmente defendidas pelo povo negro no Brasil.
O povo negro não precisa de seu dinheiro ou patrimônio
pessoal senhor Ricardo Albuquerque, nunca reivindicou isso, nem atribui a sua
pessoa qualquer relação presencial com fatos que a história registra para antes
de seu nascimento. As cobranças feitas, que por serem acertadas passaram a
fazer parte do ordenamento jurídico nacional, existem para obrigar o Estado
brasileiro a cumprir o seu papel de forma igualitária para todas e todos
cidadãos deste país. O que não ocorre justamente para com a população negra no
Brasil.
É a coincidência que faz locais com maioria de pessoas
negras terem os piores índices de investimentos públicos, maiores taxas de
violência, piores indicadores sociais e maior precariedade nos serviços
públicos? Ou há relação direta entre serem os descrentes desta população
escravisada os que mais sofrem com a precarização da vida nos dias atuais?
Ao procurador é necessário explicar que a escravidão não foi
um problema gerado pela recusa do indígena em trabalhar escravisado. A
escravidão foi uma ação objetiva de portugueses que financiaram expedições de
sequestro, encarceramento e comercialização de pessoas que até então não tinham
nenhuma intenção de vir criar quilombos no Brasil.
Navegadores que chegaram armados até os dentes nestas
terras, onde moravam milhares de pessoas que também não tinham motivo nenhum
para passarem a trabalhar ostensiva e gratuitamente para tais invasores. A tal
contingente populacional indígena a acusação de "não gostar de
trabalhar" trata-se de uma fala que
reproduz o discurso do colonizador, que considera "preguiça" a
luta dos povos originarios contra a sua
submissão e a defesa pelo seu modo de vida, sua cultura. É um discurso da elite
branca contra indígenas e negros para justificar a exploração e a opressão
contra o povo brasileiro, ainda hoje.
Portanto a escravidão só é culpa do povo escravisador, não
dos povos escravisados.
Por terem sido trazidos a força e obrigados a trabalhar de
graça, gerando o patrimônio que seguiu sendo administrado por descendentes
destes portugueses, bem como outros europeus, seus agregados e associados, a
população negra e indígena brasileira cobra receber do Estado os direitos civis
que lhe são até agora negados, na forma de educação, moradia, saneamento,
infraestrutura, segurança, soberania, direito a terra e equidade de oportunidades.
O Ministério Público do Pará é uma das instituições que
existe para garantir que injustiças não ocorram por descumprimento da nossa
Constituição e tem mais que obrigação de reconhecer a direta relação entre as
injustiças sociais atuais e a pobreza imposta ao povo trazido contra sua
vontade para trabalhar aqui e aos povos originários.
Afirmar que não existem dívidas para com as pessoas negras
no Brasil é evidenciar uma posição que justifica a desigualdade social dos dias
atuais, desvinculando-a dos mais de 300 anos de escravidão, oficialmente
encerrada há poucos 130 anos, como se não fosse o modo de produção escravocrata
a origem não apenas de quilombolas mas de toda uma população periférica de
cidades brasileiras como Belém do Pará, da grilagem de terras rurais e urbanas,
dos ataques a reservas ambientais e territórios indígenas.
É preciso explicar que nem este procurador, que deveria
trabalhar sob a égide da função social do MPPA, nem nenhuma pessoa
individualmente é cobrada pelos flagelos sofridos pela população negra e
indígena, mas que como esta população construiu o país ao longo de mais de 300
anos de sua história e nunca foi paga tampouco ressarcida por estes anos de
trabalho, sua argumentação sem base histórica, serve apenas para demonstrar o
racismo com que analisa tudo o que passa por suas mãos.
Acreditamos que esta é uma posição isolada do Procurador e
Ouvidor Geral do MPPA, Ricardo Albuquerque, e não da instituição Ministério
Público do Pará, e exigimos apuração e responsabilização exemplar para combater
o racismo institucionalizado.
Fórum Estadual de Direitos Humanos/Pará
