Ainda que as pessoas se calem, as pedras clamarão por Justiça.

No
dia 23 de maio, completarão nove anos que o casal de extrativistas
JOSÉ CLÁUDIO RIBEIRO DA SILVA e MARIA DO ESPÍRITO SANTO SILVA,
foram covardemente assassinados no interior do Projeto de
Assentamento Praia Alta Piranheira, no município de Nova Ipixuna.
Um
dia depois, 24 de maio, completarão três anos do MASSACRE DE PAU
D’ARCO, quando 10 trabalhadores rurais foram barbaramente
assassinados, por policiais militares e civis, no interior da fazenda
Santa Lúcia, no município de Pau D’Arco.
Os
dois casos têm em comum a dificuldade de se punir todos os
responsáveis pelos crimes, principalmente os mandantes das mortes.
No caso de José Claudio e Maria, embora houvesse indícios claros da
participação de outros fazendeiros como mandantes, apenas o
fazendeiro José Rodrigues Moreira, foi denunciado pelos crimes.
Condenado a 60 anos de prisão em julgamento ocorrido em 06 de
dezembro de 2016, até a presente data, a polícia civil do Estado do
Pará não fez qualquer esforço para cumprir o mandado de prisão. O
fazendeiro segue livre e transitando pela região sem ser incomodado.
O executor principal da morte do casal, Lindonjonson Silva, irmão de
José Rodrigues, condenado a 42 anos de prisão, em júri realizado
em 04 de maio de 2013, teve sua fuga facilitada e certamente
comprada, da penitenciária Mariano Antunes, em Marabá no dia 15 de
novembro de 2015. Decretada novamente sua prisão, a Polícia do Pará
nada fez para recapturar o criminoso fugitivo.
No
Caso Pau D’Arco, devido às pressões sociais e a colaboração
premiada de dois policiais que participaram da ação criminosa, o
Ministério Público denunciou 17 policiais entre civis e militares
como os executores crimes. No entanto, em relação aos mandantes das
mortes, passados três anos, a Polícia Federal, sequer concluiu o
inquérito que investiga a participação de fazendeiros da região e
autoridades policiais como possíveis mandantes das mortes.
Em
relação aos executores do massacre, devido às robustas provas da
participação, os 17 policias chegaram a serem presos, tão logo
foram denunciados pelo MP, mas, foram postos em liberdade ao final da
instrução do processo. Em fevereiro de 2019, o Judiciário de
Redenção, pronunciou 16 dos 17 policiais que tinham sido
denunciados pelo MP. O processo está agora no Tribunal de Justiça
de Belém, aguardando o julgamento de recursos da defesa e da
acusação. Não há previsão de quando os recursos serão julgados
e os acusados possam ir a júri. Mesmo diante da gravidade dos crimes
praticados em serviço, os policiais foram reincorporados às suas
funções pelo Governo do Estado.
Como
sistematicamente as entidades de defesa dos Direitos Humanos
denunciam, a impunidade tem sido uma das principais causas da
continuidade dos assassinatos no campo. Financiados por
latifundiários representantes do agronegócio, pistoleiros continuam
a assassinar trabalhadores rurais sem-terra, indígenas, quilombolas,
extrativistas, pescadores, posseiros, assentados e lideranças que
fazem a luta pelo direito ao acesso e à permanência na terra. Sem
punição exemplar para os criminosos, a impunidade funciona como uma
espécie de "licença para matar", ou seja, o pistoleiro,
assalariado do crime, que comete um assassinato a mando de alguém e
não é punido, não pensará duas vezes para aceitar outra
empreitada criminosa.
Da
mesma forma, é impossível convivermos com a insegurança de termos
agentes policiais do estado do Pará promovendo o extermínio da
população do campo, em defesa de interesses particulares, como
aconteceu no Massacre de Pau D’arco (2017) e no Massacre de
Eldorado dos Carajás (1996).
As
causas desse estado de impunidade estão diretamente ligadas aos
interesses daqueles que comandam os crimes e chefiam as quadrilhas da
pistolagem (fazendeiros, madeireiros, empresários do agronegócio,
mineradores, etc), eles concentram a maioria absoluta das terras, tem
grande poder econômico e fortes influências políticas.
Sob
o governo Bolsonaro, essa classe que comanda os crimes tem recebido
total apoio do Presidente. Uma das primeiras medidas desse governo
foi autorizar através de MPs, a posse e o porte de armas,
especialmente para os fazendeiros. Através da Medida Provisória
910/2019, o Presidente premiou os que praticam os crimes de grilagem,
desmatamento ilegal e queimadas criminosas, com a possibilidade de
regularização dessas áreas em nome dos grileiros, utilizando-se de
processos administrativos autodeclaratórios. A MP 910/19 foi
convertida no PL 2633/20 pela Câmara dos Deputados e continua
permitindo a apropriação privada de terras públicas da União e do
INCRA em todo o Brasil.
Por
outro lado, em relação à reforma agrária, Bolsonaro suspendeu
todas as ações relacionadas à aquisição, arrecadação e
desapropriação de áreas rurais para o assentamento de novas
famílias sem-terra, e suspendeu também todos os recursos para as
políticas de apoio aos assentados. Os resultados dessa política tem
sido o aumento das ameaças e mortes no campo, além do crescimento
do desmatamento e outros crimes ambientais.
Todas
essas ações adotadas pelo Poder Executivo também refletem nas
ações do Poder Judiciário, com a intensificação dos processes de
retirada dos trabalhadores de áreas ocupadas há anos, onde vivem,
trabalham e produzem alimentos. Uma das áreas com risco de despejo
no Sul do Pará é a Fazenda Santa Lúcia, onde vivem atualmente 200
famílias. Em audiência pública de desocupação realizada no
último dia 20 de fevereiro, diante da afirmação de impossibilidade
de compra da área pelo INCRA, por falta de recursos para pagamento,
um trabalhador afirmou: “essa terra já foi paga com o sangue dos
nossos irmãos”.
Assim,
diante do atual cenário estarrecedor de incertezas e inseguranças,
os camponeses, seus movimentos representativos e as entidades de
defesa dos direitos humanos precisam intensificar seus esforços de
lutas e articulações, no sentido de dar um basta a esse governo
criminoso e, com isso, criar as condições para a retomada do
respeito aos direitos das populações do campo.
Pela
memória de José Cláudio e Maria do Espírito Santo; pela memória
dos 9 trabalhadores e 1 trabalhadora rural, vítimas do Massacre de
Pau D’arco; pela memória dos mártires da luta pela terra no Sul e
Sudeste do Pará, dizemos não à violência no campo. Exigimos
Justiça e Reforma Agrária já!
Pará,
22 de maio de 2020.
Fundação
José Cláudio e Maria
Associação
de trabalhadores e trabalhadoras rurais Nova Vitória - Acampamento
Jane Júlia
Comissão
Pastoral da Terra – CPT
Sociedade
Paraense de Defesa dos Direitos Humanos – SDDH
Terra
de Direitos – TDD
Justiça
Global – JG
Rede
Nacional de Advogadas e Advogados Populares Núcleo Pará –
RENAP/PA
Associação
Brasileira de Juristas pela Democracia Núcleo Pará – ABJD/PA
Movimento
Sem Terra – MST
Movimento
dos Pequenos Agricultores – MPA
Movimento
dos Atingidos por Barragens – MAB
Clínica
de Direitos Humanos da Amazônia - CIDHA/UFPA